O desfecho · Lição 3
Reordena até aterrar
Vais baralhar as palavras que uma piada já tem até encontrares a ordem que deixa a mais engraçada para o fim.
O princípio
A regra do juiz é simples e implacável: a gargalhada dispara na surpresa, e tudo o que vem depois da surpresa é o público parado, à espera que lhe digas que já pode rir. Se a tua palavra mais engraçada cai na posição oito de uma frase de vinte palavras, tens doze palavras de explicação entre o remate e a reação do público. Essas doze palavras não são comédia. São latência.
É por isso que reordenar é a última passagem de revisão. Não estás a reescrever a piada. Pegas nas palavras que já tens, baralha-las e verificas se a mais engraçada é agora a última, ou perto o suficiente do fim para as palavras a seguir serem só uma expiração de um tempo. Mesmo vocabulário. Mesma imagem. Sequência diferente. A surpresa que estava enterrada a meio da frase está agora no fim, e a frase para em cima dela.
A mesma lógica sobe de escala até ao número inteiro. Não abres com a tua melhor piada. Não ficaria nada mais forte para depois, e o espetáculo decai a partir daí. Abres com o teu segundo melhor material, que te ganha crédito suficiente para o teu pedaço mais fraco, a meio, funcionar na mesma, porque o público já decidiu que tens graça e perdoa um momento mais mole. Depois fechas com a melhor. Depois de a fazeres em palco, dá uma nota à gargalhada de cada piada, da mais fraca à mais forte, e desenha o gráfico pela ordem de atuação. Se o gráfico afunda depois de uma parte central forte, tens um problema de sequência, não de escrita. Move a piada. A mesma lógica de aquecimento vale para o quão pessoal o material fica: primeiro o partilhado e observacional, depois o mais íntimo ou mais afiado, quando a sala já se instalou numa relação contigo.
Duas cautelas mantêm esta passagem honesta. Primeira: não desistas antes da única reordenação que a resolve. Uma piada que parece quase lá costuma precisar de exatamente uma baralhada, e não a vais fazer se já fechaste a página. Segunda: não continues depois. A comédia é invulgarmente frágil sob análise. No momento em que começas a melhorar a gramática, a apertar a lógica, a tornar a frase mais literária, arriscas-te a matar o ritmo que a tornava engraçada. A única pergunta a que a reescrita responde é se o público se ri mais alto. Se a resposta é não, devolve as palavras ao lugar.
Reordenar é a solução. Não uma piada nova. Não uma premissa nova. As mesmas palavras, na ordem que deixa à última o lugar da mais engraçada.
Numa piada
Exemplo escrito para esta lição. Mesmo tema, mesmas palavras, duas ordens.
Antes (elemento mais engraçado enterrado, explicação a arrastar):
«Pus a lasanha que sobrou dois minutos no micro-ondas, que é o tempo que o tabuleiro de plástico demora a começar a derreter e a largar um cheiro como se uma fábrica química tivesse tido um filho com uma queijaria, e depois ficas ali a respirar aquilo enquanto o temporizador desce.»
A imagem mais engraçada, o cheiro de fábrica química com queijaria, fica mais ou menos na palavra trinta de uma frase de quarenta e sete. Depois dela: «e depois ficas ali a respirar aquilo enquanto o temporizador desce». Essa oração de cauda é o público à espera de licença.
Depois (palavra de remate no fim):
«Pus a lasanha que sobrou dois minutos no micro-ondas, e agora estou ali a respirar um cheiro como se uma fábrica química tivesse tido um filho com uma queijaria.»
Mudaram três coisas. A imagem mais engraçada é agora o fim da frase, por isso a frase acaba na gargalhada em vez de depois dela. A oração do temporizador foi cortada porque, depois de a imagem aterrar, já não fazia trabalho nenhum. Os «dois minutos» ficam à frente para fixar a duração que torna o cheiro possível, em vez de interromper a imagem a meio da entrega. Não entrou nenhuma palavra nova. A sequência mudou, e a gargalhada já não tem para onde ir senão para fora.
É a tua vez
Pega na piada que o juiz acabou de avaliar. Escreve o remate inteiro num papel. Agora escreve-o de três outras formas usando só as palavras que já lá estão. Não podes acrescentar nem tirar nenhuma. Só movê-las. Lê cada versão em voz alta a um ritmo de fala normal. Aquela em que sentes a gargalhada a bater no fim é a que guardas. Se nenhuma das três bate mais forte do que a original, o problema não é a ordem, e deves passar à dimensão seguinte.
Numa linha
Baralha as mesmas palavras até a mais engraçada ser a última.