O desfecho · Lição 4

A pausa antes do remate

Vais usar as quebras de linha e a pontuação para criar a pausa que faz a tua última palavra aterrar.

O princípio

A fala tem dois tempos. O primeiro vive dentro da palavra: o espaço entre os seus sons, como esticas uma vogal ou cortas uma consoante. O segundo vive entre as palavras: o silêncio. Na página não tens um corpo com que te inclinar para a frente, nem uma respiração para suster no peito. Tens a pontuação e as quebras de linha. Essa é a tua pausa.

A pontuação é um mapa de tempos, não um enfeite gramatical. Uma vírgula é uma pausa de um tempo. Um ponto final é uma pausa de dois. Um ponto e vírgula diz que o pensamento não acabou: a respiração vem aí, mas a frase não está fechada. Os dois pontos dizem que o que se segue é o ponto, aquilo para que toda a construção existiu. Quando escreves uma frase longa sem cortes, pedes a quem lê que sustenha uma respiração que nenhum pulmão humano sustém. Estás a enterrar o remate debaixo de um rio de palavras sem descanso lá dentro.

A fala natural parte-se em unidades curtas. Umas quinze sílabas, talvez menos quando estás a dar ênfase a alguma coisa, e os pulmões impõem uma pausa. Quando pegas numa piada escrita em uma ou duas frases longas e a partes em linhas de oito a dez palavras, a estrutura revela-se. Vês, na vertical, que linha é preparação e que linha é o remate. Vês se a palavra mais engraçada está na terceira linha de uma frase de sete, seguida de mais quatro linhas de explicação que a diluem. Essa explicação arrastada é o motivo mais comum para uma piada ter 2 ou 3 no desfecho.

A correção é estrutural, e é o defeito mais fácil de arranjar em quem escreve por gosto. Acaba a frase na palavra mais engraçada. Põe o ponto final a seguir. Nada depois. Nenhuma cauda do tipo «e foi por isso que me despedi». Nenhuma ressalva do tipo «percebes o que quero dizer». A pausa antes da palavra é o que a faz aterrar. O ponto depois é o que diz a quem lê que a gargalhada está completa e que pode rir. Se não consegues acabar na palavra engraçada, a tua preparação é demasiado vaga, e o problema está a montante, não na cauda.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição, mesmo tema nas duas versões.

Antes (desfecho: 2):

«Faço o mesmo trajeto para o trabalho há seis anos e, sinceramente, o GPS diz "a recalcular" todas as manhãs como se nunca tivesse visto a estrada, o que é um bocado embaraçoso porque já a fiz dez mil vezes e ele continua a fingir todos os dias que se perdeu e eu não sei o que fazer com isto.»

Depois (desfecho: 9):

«O mesmo trajeto para o trabalho, há seis anos.

Dez mil manhãs.

Mesma estrada. Mesmos semáforos. Mesma saída.

O GPS ainda diz "a recalcular".»

Moveste a palavra mais engraçada do meio de uma frase de cinquenta palavras para a última posição, e apagaste toda a explicação «o que é um bocado embaraçoso» que vinha a seguir. Partiste a preparação em quatro linhas curtas para cada uma aterrar antes de a seguinte chegar, devolvendo a quem lê a respiração que a frase original lhe negava. A quebra de linha antes de «O GPS ainda diz» é a pausa; o ponto final depois das aspas de fecho é a licença para rir.

É a tua vez

Pega na piada que o juiz te avaliou esta noite e encontra a única palavra mais engraçada. Reescreve a piada para essa palavra ser a última, partindo a preparação em linhas de não mais de oito palavras. Põe um ponto final a seguir à palavra de remate, apaga tudo o que vinha depois, e lê o resultado em voz alta com uma pausa de uma respiração inteira em cada quebra de linha. Se a palavra de remate não faz sentido sem uma explicação, a preparação é demasiado vaga. Arranja a preparação, não a cauda.

Numa linha

Põe a palavra mais engraçada no fim. Põe um ponto final a seguir. Deixa o silêncio fazer o trabalho.

Escreve a piada desta noiteVoltar à trilha