A economia · Lição 1

Ar parado depois do remate

Vais identificar e cortar cada sílaba que vem depois da tua palavra de remate.

O princípio

O público já te pagou, em atenção. Aguentou a tua preparação, seguiu a tua lógica, manteve a premissa na cabeça enquanto construías para a viragem. É um custo real. No momento em que a palavra de remate cai, a transação está fechada. Entregaste aquilo que ele veio buscar. Cada sílaba depois dessa palavra és tu a pedir-lhe que continue a ouvir algo que já não tem trabalho a fazer.

O juiz avalia a economia como palavras necessárias sobre palavras usadas. Não é uma contagem. Uma piada de trinta palavras que acerta na vigésima oitava e depois cola duas frases de esclarecimento tem pior nota do que uma piada de nove palavras que aterra na nona e para. A dimensão castiga-te pela distância entre a última palavra que trabalha e a primeira que dizes a seguir.

Este é o defeito preciso que o juiz procura. Aterras o remate. Depois, porque não tens a certeza de que o público apanhou, ou porque queres que sinta a forma do número, acrescentas uma coda, uma reformulação, um «e foi por isso que eu disse aquilo há bocado». Nenhuma dessas palavras traz informação nova. Repetem. Explicam. Resguardam-se. A palavra de remate já fez o trabalho. A tua confiança exprime-se agora pelo silêncio, pela pausa, por deixares a gargalhada acontecer. Se falas por cima da gargalhada, gastaste a atenção do público em palavras que não acrescentam nada.

Uma ressalva, porque a trilha diz que curto não é automaticamente económico. Uma piada de cinco palavras em que três não fazem trabalho continua a ser antieconómica. O teste não é o comprimento. O teste é se cada palavra carrega peso. Tira uma palavra e a piada aterra na mesma: não carregava peso. Corta-a.

Por escrito tens uma única concessão, estreita. Não te podes apoiar numa pausa de voz ou numa sobrancelha levantada, por isso talvez precises de uma palavra de contexto a mais, que quem está em palco teria de graça pela entrega. É uma concessão de uma ou duas palavras, não uma licença para pendurar uma segunda frase de explicação porque a página não tem rosto.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição, mesmo tema nas duas versões.

Fraca: «Hoje apanhei com uma reunião geral de quarenta e cinco minutos. O único ponto era que alguém tem de arranjar as permissões da pasta partilhada. E, quer dizer, eu estou sem acesso desde março, portanto, pronto, disseram que tratam disso no próximo trimestre, o que é, sei lá, o próximo trimestre.»

Corrigida: «Reunião geral de quarenta e cinco minutos. Um ponto: arranjar a pasta partilhada a que não tenho acesso desde março. Próximo trimestre.»

Mudaram três coisas. Primeira: as expressões de enchimento («e, quer dizer», «portanto, pronto», «o que é, sei lá») desapareceram, não faziam trabalho estrutural nenhum. Segunda: a repetição colapsou. A versão fraca diz «próximo trimestre» duas vezes, uma como informação e outra como encolher de ombros; a corrigida di-lo uma vez, como última palavra. Terceira: a palavra de remate da versão corrigida é «trimestre». O público faz as contas (de março ao próximo trimestre é um buraco absurdo) e o silêncio a seguir a essa palavra é onde mora a gargalhada. Não podes falar por cima.

É a tua vez

Abre a piada que escreveste para o desafio de hoje e encontra a tua palavra de remate. Lê cada palavra que vem a seguir. Se essas palavras repetem, esclarecem ou se resguardam, apaga-as: a tua piada acaba na palavra de remate. Lê o resultado em voz alta. Se a gargalhada ainda aterra, acabaste; se não aterra, o problema está antes do remate, não depois.

Numa linha

A tua piada acaba na palavra de remate. Tudo o que vem depois é ar parado.

Escreve a piada desta noiteA seguir: Cortar a preparação até ao osso