A economia · Lição 2

Cortar a preparação até ao osso

Vais reduzir qualquer preparação ao mínimo de palavras que o remate exige na estrutura, um corte de cada vez.

O princípio

A preparação tem um trabalho só: entregar ao público exatamente as peças de informação de que o remate precisa para o engano funcionar. Nada mais. Quando escreves uma preparação e acrescentas um terceiro pormenor porque torna a cena mais viva, não estás a acrescentar informação de que o remate precise. Estás a acrescentar tempo de processamento. O público tem de segurar essa imagem a mais na memória de trabalho antes de a viragem chegar, e a viragem chega meio tempo mais tarde do que chegaria sem ela. É nesse meio tempo que a gargalhada vai morrer.

É aqui que a nota de economia se torna brutal. O juiz não conta as tuas palavras no vazio. Pergunta: esta palavra muda o que o público espera, ou só descreve o que ele já sabe? «Entrei no escritório» muda o cenário. «Entrei no escritório, aquele com as lâmpadas fluorescentes que zumbem a cinquenta hertz» não muda. A segunda frase é decoração. Custa-te pontos.

Esta é a armadilha que torna isto difícil: curto não é o mesmo que económico. Uma preparação de quatro palavras pode ser um desperdício se essas quatro palavras não plantam o engano preciso que o remate explora. E uma preparação de doze palavras pode estar perfeitamente apertada se cada palavra carrega peso. O teste não é a contagem. O teste é: se tiro esta palavra, o remate ainda aterra? Se sim, corta-a. Se o remate desaba, a palavra era estrutural. Guarda-a.

Faz uma única passagem de revisão, e depois para. A comédia vive no ritmo e na pequena surpresa de uma viragem que chega onde o público não estava a olhar. Se começas a reescrever a preparação por causa da gramática, de uma melhor estrutura de frase, da fluidez lógica, vais alisar exatamente a aspereza que tornava o remate engraçado. A reescrita está ao serviço da gargalhada e de mais nada. Se uma frase está gramaticalmente limpa e a piada ficou mais chata, a gramática era o inimigo.

E mais uma regra: se a piada já funciona, deixa-a em paz. O teu primeiro instinto sobre uma preparação demasiado longa costuma estar certo. Não deves a cada piada um segundo rascunho. Deves-lhe uma passagem honesta de cortes, e depois confias no teu ouvido em vez do dicionário de sinónimos.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição.

Versão fraca: «Então hoje de manhã ia para o escritório e fiquei preso atrás de um camião de entregas na autoestrada, sabes qual, o grande com o reboque comprido, e ia talvez a dez à hora, e eu a olhar para o telemóvel a perceber que ia chegar atrasado à reunião das nove, e já estava a ficar nervoso, e depois o camião lá encostou e cheguei ao escritório às 9h12, e o meu chefe já estava na sala de reuniões a olhar para o relógio, e diz-me: "Estás atrasado." E eu: "O camião ia a dez." E ele: "Ia a vinte."»

Versão corrigida: «Cheguei atrasado a uma reunião. "O camião ia a dez." "Ia a vinte."»

O que mudou: tiraste a autoestrada, a descrição do reboque, o telemóvel, a reunião das nove, a chegada às 9h12, o relógio. Nenhum destes pormenores altera o que o remate explora. A piada é uma correção impassível de um número; só precisa de saber que chegaste atrasado e que culpaste uma velocidade. Tudo o resto era tempo do público, não da piada. A preparação passou de cerca de cem palavras para seis. O remate é idêntico, e a gargalhada chega quatro segundos mais cedo: quatro segundos em que, na versão antiga, estava a morrer.

É a tua vez

Pega na preparação que acabaste de escrever para o desafio de hoje. Lê-a em voz alta e, a seguir a cada oração, pergunta: o remate ainda aterra se esta oração não estiver cá? Se sim, apaga-a e volta a ler tudo do início. Repete até o corte seguinte partir a piada, e depois lê a versão final a velocidade de palco. Se passam mais de oito segundos até ao remate, tens mais um corte a fazer.

Numa linha

Apaga cada palavra da preparação de que o remate não precisa para o engano funcionar.

Escreve a piada desta noiteA seguir: As palavras que pedem desculpa