A economia · Lição 3

As palavras que pedem desculpa

Vais identificar e cortar cada bordão que dilui o teu remate.

O princípio

O público já investiu tempo na tua preparação. Inclinou-se para a frente. E tu metes um «basicamente» ou um «se é que me entendes», e acabaste de lhe dizer que a piada não tem confiança suficiente para se aguentar sozinha. Essas palavras são a voz de quem escreve a dizer *não tenho a certeza de que isto aterrou, por isso deixem-me explicar*. A nota de economia castiga isso, porque cada sílaba depois do remate é ar parado, e um bordão antes do remate dilui o balanço da preparação num murmúrio.

Pensa nisto de forma mecânica. «Basicamente» acrescenta quatro sílabas e zero informação. «Se é que me entendes» acrescenta seis e convida ativamente o público a duvidar se te entende mesmo. Transformaste uma afirmação numa pergunta. O cérebro do público passa de receber para verificar, e a gargalhada que se estava a formar é interrompida por um pequeno ato de conferência.

A solução não é acrescentar uma frase de esclarecimento depois do remate. É apagar o bordão e confiar na estrutura. Se a piada funciona sem a explicação, a explicação nunca estava a fazer nada. Se não funciona sem ela, a piada está partida, e nenhuma quantidade de «quer dizer» a vai salvar. Em qualquer dos casos, o bordão está a custar-te.

Por escrito, a tentação é pior. Não te podes apoiar numa sobrancelha levantada ou numa respiração suspensa, por isso agarras-te às palavras para fazerem o trabalho que a entrega faria. Mas a solução escrita é a mesma: corta a palavra, não a ideia. Se «basicamente» está a fazer o trabalho de uma mudança de tom, a mudança de tom está errada. A frase tem de ser construída para que o sentido seja carregado pelos substantivos e pelos verbos, não por um pequeno encolher de ombros verbal.

Quando partes o teu material em pedaços do tamanho de uma respiração, os bordões tornam-se visíveis. Ficam ali na sua pequena frase, isolados, e vês que não carregam peso nenhum. São um tique nervoso tornado audível. Corta-os. A frase a seguir aterra mais forte sem a desculpa à frente.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição:

Versão fraca: «Basicamente ando há três dias a tentar configurar o router novo do Wi-Fi, e se é que me entendes, é daquelas coisas em que ficas ali com o alfinete do reset na mão, e quer dizer, nem tens a certeza de que estás a fazer bem, mas basicamente o gato passou por cima e agora pisca a vermelho, que é, tipo, a coisa mais agressiva que um móvel pode fazer.»

Versão corrigida: «Ando há três dias a fazer reset ao router do Wi-Fi. O gato passou por cima. Pisca a vermelho. É a coisa mais agressiva que um móvel pode fazer.»

O que mudou: sete bordões desapareceram («basicamente» duas vezes, «se é que me entendes», «quer dizer», «tipo», «que é», «nem»), e a única frase longa sem respiração passou a quatro frases curtas. O gato é uma imagem limpa em vez de uma oração enterrada. O piscar a vermelho é o último pormenor concreto, e a frase final é o remate, sem nada a seguir a diluir a aterragem.

É a tua vez

Lê a tua piada avaliada em voz alta, devagar, e marca cada «basicamente», «tipo», «quer dizer», «sabes», «mais ou menos», «de certa forma», ou qualquer expressão em que estás a explicar a piada ao público em vez de a deixares aterrar. Risca essas palavras com um traço só. Lê a piada outra vez, sem as palavras riscadas. Se ainda funciona, acabaste; se não funciona, o problema é estrutural e tens de reconstruir a preparação, não acrescentar outra explicação.

Numa linha

Risca cada palavra que explica a piada ao público.

Escreve a piada desta noiteA seguir: Curto não é económico