A surpresa · Lição 3
O padrão que quebras
Vais construir um padrão de dois elementos e quebrá-lo no terceiro tempo, para a surpresa disparar.
O princípio
Este é o mecanismo. Enumeras duas coisas. Estão na mesma categoria. Têm o mesmo tom. E, o mais importante, são aborrecidas. O público arquiva-as em «sim, faz sentido» e o cérebro prende-se a uma direção. Agora está a prever. Agora anda sobre carris.
O terceiro elemento é onde sais dos carris. Tem de continuar a pertencer ao conjunto que os dois primeiros abriram. Se saltas para um tema sem relação, o público não sente uma quebra: sente um disparate, que é uma surpresa diferente e mais fraca. O terceiro elemento tem de ser reconhecível como membro da lista. O que muda é a escala ou a unidade. Vais do grande para o pequeno, do pequeno para o extremo, do concreto para o abstrato. A forma é esta: o público esperava uma terceira repetição do padrão e recebe um terceiro membro da categoria do padrão que lhe viola os parâmetros.
É por isso que os dois primeiros tempos têm de ser sinceros e sem graça. No momento em que piscas o olho ao público no primeiro, no momento em que tornas o segundo um bocadinho estranho, disseste-lhe que a lista é uma piada. O cérebro que prevê passa de «que número vem a seguir» para «onde está o remate». Assim que espera um remate, o terceiro tempo é só o remate que já esperava. A distância de surpresa fecha-se a zero. Mantém o primeiro e o segundo tempo lisos, factuais, quase enfadonhos. Deixa o público instalar-se num ritmo em que confia. E então, no terceiro, quebra o ritmo de uma forma que continue a ser sobre a mesma coisa.
Porque é que isto mexe precisamente na nota de surpresa? Porque a surpresa é a distância entre o que a preparação leva o público a esperar e o que o remate entrega. Um padrão de dois elementos é a forma mais barata e mais fiável de fabricar uma expectativa estreita e precisa. «Caro, caro» faz esperar «caro». «Silencioso, silencioso» faz esperar «silencioso». O terceiro elemento que fica na categoria mas desloca a escala ou a unidade cria uma distância grande o suficiente para se notar, precisa o suficiente para ter graça, e assente o suficiente para o público saber explicar porque se riu. Não o surpreendes com um facto ao acaso. Surpreende-lo com a unidade de medida que trocaste, ou com a direção da escala que inverteste. É uma distância que se sente, e é uma distância que o juiz conta.
Numa piada
Exemplo escrito para esta lição, versão fraca:
«Fiz o orçamento da viagem. O voo, novecentos euros. O hotel, quatrocentos por noite. O carro de aluguer, duzentos e cinquenta por dia.»
Três elementos. Mesma categoria. Mesma escala. Mesmo tom liso e numérico. O público esperava uma lista de despesas e recebeu uma lista de despesas. A distância é zero. O juiz lê «vai exatamente para onde foi apontada» e a nota de surpresa fica no chão.
Versão corrigida:
«Fiz o orçamento da viagem. O voo, novecentos euros. O hotel, quatrocentos por noite. O estacionamento do aeroporto custou-me onze semanas de dignidade.»
O que mudou: os dois primeiros tempos fazem agora construção pura de padrão. Valores concretos em euros, entrega impassível, nenhuma piscadela. O público está a fazer contas. O terceiro tempo fica na mesma categoria (um custo da viagem) mas troca a unidade de euros para algo que não se mede e é emocionalmente extremo. O público esperava um número e recebeu um sentimento. A surpresa está na troca de unidade, não num tema novo.
É a tua vez
Pega na piada que escreveste para o desafio de hoje. Encontra ou constrói dentro dela uma lista de três elementos. Reescreve o primeiro e o segundo tempo para ficarem lisos, factuais e no mesmo registo numérico ou de tom. Depois reescreve o terceiro para ficar na mesma categoria mas trocar a unidade: de euros para emoção, de pequeno para extremo, de concreto para abstrato. Lê os três em voz alta com a mesma voz impassível. Se no terceiro sentes o ritmo a partir-se no peito, a distância é real. Se não, os dois primeiros não eram aborrecidos o suficiente.
Numa linha
Dois tempos constroem o padrão. O terceiro troca a unidade.