A surpresa · Lição 1

A premissa que plantas

Vais identificar a única premissa que a tua preparação planta, e quebrá-la com um remate que a substitui.

O princípio

A preparação é a metade da piada que carrega a arma. Entregas ao público um tema, uma atitude perante esse tema e um motivo — uma premissa, normalmente assinalada pela palavra «porque» — e depois vais-te embora. A partir dessa semente em três partes, o público constrói uma história mental inteira nos dois segundos seguintes. Preenche os pormenores, o que está em jogo, a direção. Já vai a meio de uma frase de uma narrativa que nunca disseste.

É por isso que a preparação é a metade mais difícil de escrever, e a que a maioria dos rascunhos estraga. Se a premissa é vaga, ou se por engano dás duas, o público divide-se em duas ou três histórias diferentes. Quando o remate chega, não estão todos a olhar para a mesma coisa, e a surpresa dispersa-se. Uma expectativa segura. Uma direção. O público tem de estar a andar por um único corredor quando lhe arrombas a porta.

O trabalho do remate é substituir esse corredor por outro. Não por um melhor. Não por um mais engraçado. Por um diferente. O público já se comprometeu com a História A: a continuação óbvia, esperada, lógica da tua premissa. O remate entrega-lhe a História B, igualmente plausível depois de vista, mas que não era o caminho que os seus dois primeiros segundos escolheram. A distância entre A e B é a nota de surpresa. Se o remate é só a História A dita de forma mais curta, ou a História A com um adjetivo colado, a distância é zero. Levaste o público pelo corredor e depois apontaste para a parede.

O teste prático: depois de escreveres a preparação, tapa o remate. Lê a preparação em voz alta. Pergunta-te o que o público espera nos três segundos seguintes. Anota essa expectativa. Agora o remate não pode ser essa frase. Tem de ser a frase que o público pensaria às 23h03 se a versão das 23h00 não tivesse chegado.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição, nas duas versões.

Fraca: «O meu trajeto para o trabalho são quarenta minutos de trânsito parado. Fico ali sentado. É a pior parte do meu dia.»

A preparação diz «terrível». O remate diz «pior». Mesma direção, mesma história, um superlativo a mais. O público esperava uma queixa e recebeu uma queixa. A distância é zero.

Corrigida: «O meu trajeto para o trabalho são quarenta minutos de trânsito parado. Já me habituei tanto ao passo de caracol que, quando apanho um troço de autoestrada livre, sinto-me um bocadinho culpado, como se estivesse a trair o meu carro.»

O que mudou: a preparação continua a plantar o mesmo tema (um trajeto longo e desgastante) e a mesma atitude (resignação). Mas a premissa deslizou de «isto é mau» para «isto é uma relação em que me instalei». O remate substitui a expectativa de uma queixa por uma pequena traição doméstica. O público esperava «odeio o trânsito» e recebeu «sinto-me culpado quando o trânsito anda». Um corredor só, uma porta diferente.

É a tua vez

Pega no teu rascunho atual e lê só a preparação em voz alta. Anota, numa frase simples, a expectativa que quem ouve vai formar nos dois segundos seguintes. Agora risca essa frase e escreve um remate que seja uma continuação diferente, mas igualmente plausível, da mesma premissa. Se o novo remate ainda contém o mesmo verbo ou o mesmo adjetivo da preparação, é uma reformulação, não uma substituição. Continua até a direção virar mesmo.

Numa linha

Planta um corredor; arromba outra porta.

Escreve a piada desta noiteA seguir: Dois sentidos, uma frase