O desfecho · Lição 1

A palavra mais engraçada vai no fim

Vais saber mover uma única palavra para o fim de uma frase e ver a nota de desfecho disparar.

O princípio

Uma piada tem dois trabalhos. A primeira metade constrói uma imagem na cabeça de quem ouve. Não ouve só as tuas palavras: preenche pormenores que nunca disseste, tece uma pequena narrativa a partir da tua preparação, uma «primeira história» privada que corre à tua frente. A segunda metade substitui essa narrativa por outra. A gargalhada é o momento em que a substituição aterra. É um único clique mental: o cérebro larga a primeira história e salta para a segunda.

Esse clique é o acontecimento inteiro. Não é um sentimento sustentado. É um pico, meio segundo de reorientação, e o pico tem direção. Dispara na palavra precisa que provoca a reorientação. Se essa palavra está no meio da frase, o pico dispara, o público ri-se, e tu continuas a falar. Acrescentas contexto. Dizes «que é a mesma coisa» ou «e é por isso que o faço». Cada palavra depois do pico é o público à espera que te cales para se poder rir outra vez. Roubaste-lhe a licença para rir.

O juiz avalia esta dimensão de 0 a 10. Um 9 ou um 10 quer dizer que a palavra de remate é a última, ou perto o suficiente do fim para nada a diluir. De 0 a 3 quer dizer que o elemento mais engraçado está enterrado a meio da frase e arrasta uma explicação atrás. É o defeito mais comum em quem escreve por gosto, e o mais fácil de corrigir, porque a correção não é uma reescrita. É uma deslocação. Pegas na palavra que os fez rir e pões-la no fim. A preparação, o contexto, a explicação, tudo isso fica onde está. Só reordenas, para que o pico bata no último tempo e depois venha o silêncio.

A preparação é a metade mais difícil de escrever, e quase toda a gente o sabe por instinto. Precisas de um tema, de uma atitude perante esse tema e de uma premissa: uma oração com «porque» que diz a quem ouve por que razão o tema merece essa atitude. Acerta nessas três coisas e o público está dentro: construiu a sua primeira história e está à espera da quebra. O remate só tem de ser a palavra que a quebra. E essa palavra tem de ser a última que ouve antes de a sala ficar em silêncio.

Numa piada

Exemplo escrito para esta lição:

Antes (desfecho: 3): «Ao domingo preparo as refeições da semana, ou seja, três horas a encher catorze caixas iguais com o frango mais triste da Europa, e depois à quarta como uma à secretária e digo a mim próprio que isto é uma vida.»

Depois (desfecho: 9): «Passo três horas todos os domingos a encher catorze caixas iguais. À quarta sento-me à secretária e como o frango mais triste da Europa.»

O que mudou: não se inventou nada. A imagem mais engraçada, «o frango mais triste da Europa», estava na palavra dezasseis de uma frase de trinta e oito, com «e depois à quarta como uma à secretária e digo a mim próprio que isto é uma vida» a arrastar-se atrás. Agora essa imagem é a última coisa que quem lê ouve, o comentário autodepreciativo de cauda desapareceu, e a preparação que antes vinha depois do remate passou para a frente. Mesma piada, mesmas palavras, uma posição.

É a tua vez

Abre a piada que o juiz acabou de avaliar. Encontra a palavra que te fez sorrir quando a escreveste, a que provocou a reorientação. Move essa palavra para o fim da frase. Não reescrevas mais nada; não acrescentes uma imagem nova. Lê a frase em voz alta uma vez. Se a gargalhada aterra na última palavra e depois te calas, acabaste. Dez minutos, uma palavra, uma posição.

Numa linha

A palavra mais engraçada que escreveste vai no fim, e tudo o resto passa para a frente.

Escreve a piada desta noiteA seguir: A explicação que mata